Tradução em andamento do livro “A Dispensational or a Covenantal Interpretation of Scripture - Which is the Truth?” por Bruce Anstey
Este livro encontra-se em processo de tradução, portanto para uma leitura mais ordenada sugiro que comece pela postagem mais antiga no Arquivo da coluna da direita.

Um chamado especial de crentes para formarem a Igreja

Um chamado especial de crentes para formarem a Igreja

Primeiro ele diz: “que os gentios são co-herdeiros” nessa coisa nova que Deus está edificando — a Igreja. Outra tradução mais correta diz que “os pagãos são chamados a participar da mesma herança”, indicando existir um chamado especial para tirar, de entre as nações, os crentes que Deus predestinou para compartilharem de um lugar juntamente com Cristo neste algo novo — a Igreja. Este chamado de Deus não está trazendo das nações gentias multidões para Jeová, como foi anunciado no Antigo Testamento para virem a ter um lugar no reinado do Messias sob Israel (Zc 2:11; 8:22-23; Is 11:10; 14:1; 56:3-7; 60:1-5; Sl 22:27; 47:9; 72:10-11). O chamado ainda futuro irá resultar numa conversão exterior das nações gentias, o que acontecerá quando forem a Cristo em Sua glória no reino. Elas farão aliança com o Deus de Israel por medo de serem julgadas; não será necessariamente uma obra de fé em seus corações (Sl 18:44-47; 66:1-3; 68:28-31; Is 60:14), apesar de que muitos dos gentios entre eles irão sinceramente crer (Ap 7:9-10).
Essa convocação é vista também em Atos 15:3, onde fala da “conversão dos gentios” ou, literalmente, “conversão daqueles dentre as nações”. Como já foi mencionado, não se trata da conversão das nações gentias como um todo — o que ocorrerá no futuro — mas de um chamado especial feito pelo evangelho por meio do qual um seleto número de pessoas de entre os gentios é chamado para fora. Isto é mais uma vez declarado em Atos 15:14, que menciona “como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles [dentre eles] um povo para o Seu nome”.
Esta obra especial de Deus por meio do evangelho também envolve o chamado de alguns judeus para fora da nação de Israel para fazer parte deste algo novo — a Igreja. Deus está tirando determinados judeus para fora de seu lugar de origem na nação de Israel e os colocando na Igreja. Paulo era um exemplo disto. O Senhor lhe disse: “Livrando-te deste povo [Israel]...”, ou, literalmente, “livrando-te de entre o povo [Israel]” (At 26:17).
Judeus e gentios, como entidades distintas, continuam existindo na terra enquanto o chamado do evangelho segue sendo feito hoje, e eles continuarão a existir no futuro como grupos separados. Mas agora, como consequência do evangelho, uma terceira entidade tem sido formada — a Igreja de Deus. Esta coisa nova é bem distinta e completamente separada das duas outras, e não deve ser confundida com elas. Esta distinção foi claramente assinalada pelo apóstolo Paulo, ao dizer: “Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos [gentios], nem à igreja de Deus (1 Co 10:32).
Portanto, na atual dispensação da Graça, Deus está chamando crentes judeus e gentios para fora de suas antigas posições e formando assim algo novo — a Igreja. O próprio significado da palavra Igreja (“Eclésia” em grego) é “chamados para fora” e expressa muito bem este chamado especial de Deus por meio do evangelho. Crentes tirados de entre judeus e gentios agora esperam em Cristo (Ef 1:12-13), antes daquele dia futuro, quando uma multidão formada por um remanescente de Israel e pelas nações gentias, será levada maciçamente a Deus.
Em segundo lugar, Efésios 3:6 também indica que crentes de entre os gentios formariam “um mesmo corpo” com crentes tirados de entre os judeus. Portanto, o Mistério revela que judeus e gentios que creem no evangelho são transformados em um organismo vivo (“um mesmo corpo”) que funciona para a satisfação de Deus e no qual a própria vida e características morais do Filho de Deus são manifestadas (Cl 1:26-27). A “parede de separação que estava no meio”, entre judeus e gentios, foi agora derrubada na Igreja. Ambos são abençoados de maneira igual em um lugar inteiramente novo diante de Deus, “em Cristo” (Ef 2:14-16). Este “um só corpo” é o resultado do Espírito de Deus habitando nesses crentes e unindo-os a Cristo, “a Cabeça” nos céus (1 Co 12:13; Ef 1:22-23; Cl 1:18). A descida do Espírito Santo no mundo para formar e habitar no corpo de Cristo é chamada de “batismo do Espírito” (Mt 3:11; Mc 1:8; Lc 3:16; Jo 1:33; At 1:5; 11:16; 1 Co 12:13). Este foi um ato corporativo que aconteceu no dia de Pentecostes para os judeus que creram (At 2), e mais tarde na casa de Cornélio para introduzir os gentios (At 10). Assim o batismo do Espírito foi completado.
Ao contrário do que muitos cristãos evangélicos imaginam os crentes não passam a fazer parte do corpo de Cristo pelo batismo do Espírito — já que a obra do Espírito em batizar foi completada em Atos 2 e Atos 10. Repare com atenção que 1 Coríntios 12:13 diz que “todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos...”, significando que o batismo foi o que formou este “um corpo”. O Espírito de Deus tomou os crentes que estavam naquele cenáculo no dia de Pentecostes e os uniu a Cristo, a Cabeça do corpo nos céus, pelo fato de habitar neles.
J. N. Darby observa que a ação do Espírito ao batizar em 1 Coríntios 12:13 está no tempo aorista do grego, que tem o significado de algo feito de uma vez para sempre. Isto demonstra que desde então o Espírito não está mais executando essa ação, simplesmente porque a obra de formação do corpo já foi feita. Se o Espírito estivesse batizando hoje, isto significaria que Ele estaria formando cada vez mais corpos. Algo assim não poderia acontecer, pois o Espírito nos diz enfaticamente que “há um só corpo” (Ef 4:4). Mas, se assim é, como poderia Paulo falar de si mesmo e dos Coríntios como sendo batizados pelo Espírito? Eles nem sequer estavam salvos quando o Espírito desceu no dia de Pentecostes. A resposta é que Paulo estava falando de todos os membros do corpo em seu sentido representativo. Ele disse: “Todos nós [os cristãos como um todo] fomos batizados em um Espírito, formando um corpo” — referindo-se à ação passada do Espírito no dia de Pentecostes e na casa de Cornélio.
Isto é semelhante à incorporação de uma companhia. Ela é incorporada apenas uma vez e, depois disso, cada vez que a companhia contrata um novo funcionário ela não é incorporada outra vez. O novo funcionário é meramente adicionado a uma companhia já incorporada. Do mesmo modo, quando alguém hoje é salvo, ele é acrescentado, pela presença do Espírito em si (“selados” - Ef 1:13) a um corpo já batizado. Não existe um novo batismo para a companhia cristã cada vez que um novo crente é acrescentado ao corpo de Cristo.
Para ampliar um pouco mais o exemplo, suponha que tenhamos participado de uma das reuniões da diretoria daquela companhia e escutado um dos diretores dizer: “Fomos incorporados há cem anos”. Não teríamos qualquer dificuldade em entender o que ele quis dizer. Ninguém diria: “O que você está dizendo? Nenhum de nós nesta sala tem mais de 60 anos; como você pode dizer que fomos incorporados há cem anos?” Todos nós saberíamos que o diretor estava falando no sentido representativo da companhia. Do mesmo modo, em 1 Coríntios 12:13 Paulo falava daquilo que era verdadeiro a respeito do corpo de Cristo, do qual ele e os Coríntios faziam parte.
O Antigo Testamento revela que, em Seu reino, Cristo irá reinar sobre Israel e sobre as nações gentias na terra (Sl 93:1; Is 32:1), mas as Escrituras nunca dizem que Ele reina sobre a Igreja, que é o Seu corpo. Este corpo celestial unido a Cristo pela habitação do Espírito é uma criação inteiramente nova de Deus (Ef 2:10) e desfruta de um relacionamento especial com Cristo como Sua noiva e esposa (Ap 19:7; 21:9).
Um terceiro ponto que Efésios 3:6 indica é que esta companhia de judeus e gentios escolhidos são “co-herdeiros, de um mesmo corpo e participantes da promessa em Cristo”. Esta promessa não é uma referência às que Deus fez aos patriarcas nos tempos do Antigo Testamento. As promessas a Abraão, Isaque e Jacó foram feitas durante o tempo de vida deles, mas esta promessa foi feita antes da fundação do mundo. Trata-se da promessa da “vida eterna”, a qual o Pai fez ao Filho “antes dos tempos dos séculos” (2 Tm 1:9; Tt 1:2). Ele prometeu a Seu Filho que existiram aqueles redimidos por graça, que seriam introduzidos na vida e comunhão que Eles próprios desfrutavam desde a eternidade. Esta é uma bênção distintamente pertencente ao Novo Testamento (Tt 1:2).
Portanto, aprendemos destas três coisas em Efésios 3:6 que o atual chamado de Deus pelo evangelho de Sua graça é algo totalmente diferente daquilo que foi anunciado nas Escrituras do Antigo Testamento a respeito do propósito de Deus em abençoar Israel e as nações gentias sob Israel.

Quanto mais estudarmos as diferenças entre as distintas maneiras de Deus tratar com Israel e com a Igreja, mais descobriremos que são coisas tão diferentes quanto giz e queijo. A verdade é que não poderiam existir duas coisas mais distintas, e as características que apresentaremos a seguir confirmam isto.



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