Tradução em andamento do livro “A Dispensational or a Covenantal Interpretation of Scripture - Which is the Truth?” por Bruce Anstey
Este livro encontra-se em processo de tradução, portanto para uma leitura mais ordenada sugiro que comece pela postagem mais antiga no Arquivo da coluna da direita.

JOÃO 14

JOÃO 14 

No capítulo anterior o Senhor anunciou aos seus discípulos que os deixaria para voltar ao Pai (Jo 13:33-36). Eles evidentemente ficaram atribulados, pois estavam esperando que Ele estabelecesse o reino em poder como Messias de Israel. Aquilo atrapalhava todos os seus planos e esperanças. Uma vez que o Senhor havia sido rejeitado, Ele não estabeleceria o Seu reino naquela ocasião, mas introduziria uma nova ordem de coisas na forma de uma nova dispensação. Para confortar os corações de Seus discípulos o Senhor apresentou a eles não menos que doze coisas que ganhariam na nova dispensação, as quais eram superiores às que tinham na antiga dispensação. A intenção era trazer conforto aos seus corações entristecidos, ao revelar que iriam receber algo melhor. Tudo aquilo seria uma consequência de o Senhor ascender de volta ao Pai nas alturas e enviar o Espírito Santo, duas características singulares do Cristianismo (Jo 7:39). As doze vantagens espirituais seriam:
  •         Eles iriam conhecê-Lo de uma nova maneira como a Cabeça glorificada da nova criação, ao invés de tê-Lo como o Messias de Israel (Jo 14:1).
  •         Eles teriam um lugar preparado para habitarem na casa do Pai nos céus (Jo 14:2-3). Todo judeu fiel esperava por um lugar no reino na terra, mas isto era algo muito superior ao melhor lugar que alguém pudesse ter na terra.
  •         Eles conheceriam o Pai pela posse da vida eterna (Jo 14:4-11; Jo 17:3). O Senhor Jesus é “o caminho” ao Pai, é “a verdade” do Pai, e “a vida” que nos introduz em uma relação de parentesco com o Pai. Mas era necessário que o Pai fosse revelado pelo Filho (Jo 1:18), que a redenção fosse consumada (Jo 3:14-15) e enviasse o Espírito Santo (Jo 4:14).
  •         Eles fariam obras ainda maiores em seu serviço do que o próprio Senhor havia feito (Jo 14:12; At 2:41; 5:15-16).
  •         Eles teriam um novo poder na oração quando se dirigissem a Deus em nome do Senhor (Jo 14:13-14).
  •         Eles teriam a presença e o poder do Espírito com eles de duas maneiras: “convosco” e “em vós” (Jo 14:16-17).
  •         Eles desfrutariam da presença do Senhor em seu meio coletivamente (Jo 14:18). Ele viria a eles (em espírito) quando estivessem reunidos e assim poderiam contar com Sua presença em seu meio (Mt 18:20; Jo 20:19).
  •         Eles viveriam com Sua ajuda como Sumo Sacerdote intercedendo por eles (Jo 14:19; Rm 5:10; Hb 7:25).
  •         Eles desfrutariam de uma nova posição de aceitação diante de Deus em Cristo (Jo 14:20 — “vós em mim”) e o caráter do Senhor seria formado neles pelo Espírito habitando aqui (Jo 14:20 “em vós”).
  •         Eles desfrutariam de comunhão com Ele e com o Pai de uma forma muito mais íntima (Jo 14:21-24).
  •         Eles teriam uma completa revelação da verdade por meio da vinda do Espírito (Jo 14:25-26). Quando o Senhor estava com eles lhes ensinava as coisas concernentes ao reino na terra (“Tenho-vos dito isto”), mas o Espírito revelaria a eles “todas as coisas”, que é a revelação cristã.
  •         Eles teriam a Sua paz com eles quando tivessem de enfrentar a oposição e perseguição (Jo 14:27).





JOÃO 13

JOÃO 13

Havia chegado a hora de o Senhor voltar para o Pai. Antes de partir Ele indicou (simbolicamente) que iria deixar Seu ministério dirigido a Israel, o qual era messiânico e terrestre, para Se ocupar de um novo ministério celestial (Sua advocacia), por meio do qual manteria os Seus em comunhão com Deus durante a Sua ausência (1 Jo 2:1-2). Esse novo ministério que o Senhor estava prestes a assumir representa outra transição da antiga para a nova dispensação.
Primeiro o Senhor “levantou-se da ceia” onde estavam comendo juntos, e tirou Suas vestes colocando-as de lado (Jo 13:4a). Levantar-se na ceia daquela maneira foi uma ação simbólica indicando que Ele estava prestes a romper Suas associações exteriores com eles no reino como o Messias de Israel.
Em seguida Ele “tomando uma toalha, cingiu-se” (Jo 13:4b). Isso indicava que no novo lugar, aonde o Senhor se dirigiria nas alturas, Ele assumiria a posição de um Servo e trabalharia para manter o Seu povo em comunhão Consigo.
Finalmente Ele “deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos” (Jo 13:5). Isso nos fala do uso da “água da Palavra” em sua aplicação no andar do crente. A remoção da sujeira de nossos pés mostra o trabalho do Senhor como nosso Advogado diante do Pai, ao nos exercitar no juízo próprio tendo em vista a santidade de Deus (1 Jo 1:9) e por meio do que somos capacitados a caminhar em comunhão com Ele (Jo 14:21, 23).
Os resultados do ministério de lavar os pés, praticado pelo Senhor, tinham quatro aspectos:
  •         Desfrutaríamos do Seu amor em comunhão com Ele — “... tens parte comigo” (Jo 13:8-11).
  •         Desejaríamos levar outros a também desfrutarem de Seu amor — “... vós deveis também lavar os pés uns aos outros” (Jo 13:12-17).
  •         Discerniríamos os Seus pensamentos (discernimento espiritual) — “Desde agora vo-lo digo, antes que aconteça” (Jo 13:18-30).
  •         Daríamos ao mundo um testemunho poderoso — “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos” (Jo 13:31-35).



JOÃO 11-12

JOÃO 11-12

Encontramos nestes capítulos o registro de Lázaro sendo ressuscitado de entre os mortos e depois sentado em um círculo de comunhão com outros da mesma fé e que tinham seu foco no Senhor. Lázaro saiu da esfera da morte para uma esfera de “verdadeira vida” (1 Tm 6:19 ARA). Isto ilustra outro aspecto da transição do Judaísmo para o Cristianismo.
A condição de morte na qual Lázaro estava é uma figura da condição da nação de Israel sob a Lei, moral e espiritualmente falando. Todo o sistema da Lei é um “ministério da morte” e um “ministério da condenação” (2 Co 3:7, 9). Todos os que estivessem sob a Lei e não atendessem os seus termos estavam condenados e, em certo sentido, mortos por ela. Esta é exatamente a posição de Israel; toda a nação se encontrava em uma condição de morte diante de Deus. A ressurreição de Lázaro é uma figura da obra do Senhor tirando um remanescente de crentes para fora daquele sistema legalista. Maria e Marta representam as duas partes do remanescente crente que havia naquela época. Maria aguardava em expectativa pela vinda do Senhor (Jo 11:20). Ela representa, entre outros, os “Simeões” e as “Anas” que aguardavam por fé a “redenção de Jerusalém” (Lc 2:25-38). Marta, por sua vez, expressava a fraqueza da fé que também havia entre muitos crentes judeus de sua época. Ela reconhecia o poder do Senhor, mas questionava sua pontualidade e até O culpava por chegar tarde (Jo 11:21). Naquela época muitos crentes estavam assim, cheios de dúvidas (Mt 28:17; Lc 24:13-33; Jo 20:24-31).
Ao ser recebido, o evangelho não somente concede “vida eterna” para a alma do crente, mas também o coloca em uma esfera de vida na companhia dos santos. Este último aspecto da vida está ilustrado na ceia em que Lázaro é visto depois de ter sido ressuscitado de entre os mortos pelo Senhor (Jo 12:1-3). Ele desfrutava de feliz comunhão na ceia com Maria, Marta e os discípulos, tendo o Senhor no meio deles. Lázaro não apenas recebeu vida em sua alma, mas foi também introduzido em uma esfera de vida entre crentes, o que é uma figura da comunhão cristã à Mesa do Senhor (1 Co 10:16-17).
Todavia, Lázaro não saiu diretamente da sepultura para a ceia em Betânia. Quando ele saiu da sepultura ele estava com “as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço” e precisava ser solto. Isto nos fala das amarras dos princípios legalistas do Judaísmo que restringem o crente (At 15:10; Gl 4:24-25). As pessoas que eram salvas e tiradas daquele sistema geralmente ficavam limitadas pelos princípios legais que tinham formado suas consciências. Elas costumavam carregar para o círculo da comunhão cristã suas mortalhas, que eram os princípios e práticas legalistas do Judaísmo (At 10:9-16; Rm 14:1-6; Gl 2:11-14). O Senhor ordenou: “Desatai-o e deixai-o ir” (Jo 11:44). Isto nos fala da obra que o Senhor deu para os Seus servos fazerem (particularmente os apóstolos) nos primeiros dias do Cristianismo. O ministério deles para com aqueles no Judaísmo que eram salvos por meio da pregação do evangelho tinha o objetivo de libertá-los das amarras daquela religião terrena. As epístolas judaico-cristãs (Hebreus, Tiago e Primeira e Segunda Pedro) são um exemplo desse ministério. Aqueles escritores do Novo Testamento trabalharam para libertar os crentes judeus das mortalhas do Judaísmo e estabelecê-los na liberdade cristã.
Em meio aos eventos relacionados a Lázaro sendo ressuscitado, vemos que Caifás, o sumo sacerdote daquele ano, sem perceber “profetizou que Jesus devia morrer pela nação” (Jo 11:47-54). Ele sugeriu ao conselho que deviam matar o Senhor Jesus, um Homem justo, a fim de preservar, se possível, a posição daquela nação na terra sob o domínio dos romanos. Parafraseando o que disse, “Se este movimento (de pessoas seguindo o Senhor Jesus) continuar haverá uma revolução na terra e os romanos virão e nos matarão a todos”. Ele sugeria que deveriam matar a Cristo, dispersar Seus seguidores e por um ponto final àquele movimento, salvando assim a nação de ser destruída. Ele raciocinava ser melhor “que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação”. Assim, Caifás não tinha qualquer escrúpulo em matar um Homem inocente se fosse para preservar o lugar da nação na terra. Mas Deus interferiu naquilo que disse e ele acabou profetizando contra sua própria vontade o que exatamente iria acontecer na morte de Cristo. O Senhor não apenas morreria pela nação, mas iria também “reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos” (Jo 11:49-53). Isto aponta para a atual obra de Deus por meio do Espírito nesta dispensação cristã trazendo crentes gentios para o rebanho de Deus juntamente com crentes judeus (Jo 10:16).
Depois de liberto, Lázaro é visto em comunhão com suas irmãs e os apóstolos durante a ceia em Betânia (Jo 12:1-3). Trata-se de uma cena que representa a comunhão e adoração cristãs. Vemos Maria no exercício da liberdade que caracteriza a adoração cristã. Ela não tinha autoridade oficial para agir como sacerdote (como era exigido na religião judaica), todavia aproxima-se livremente do Senhor com seu “arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço” — o que nos fala de adoração. Ela foi criticada por ter derramado o unguento sobre o Senhor. É triste ter de reconhecer que aqueles que, a exemplo de Maria, agirem na liberdade do Espírito na adoração cristã, serão criticados por aqueles cuja mentalidade foi formada pela ordem judaica (Jo 12:4-8). Além disso, os principais sacerdotes decidiram matar Lázaro, depois de este ter sido ressuscitado de entre os mortos (Jo 12:10). Isto demonstra que haverá perseguição contra aqueles que foram libertos das cadeias do Judaísmo e caminham na liberdade do Cristianismo.



JOÃO 10

JOÃO 10 

Este capítulo enfatiza outro aspecto da transição do Judaísmo para o Cristianismo e enfoca o novo princípio sobre o qual Deus iria reunir o Seu povo.
O Senhor anunciou que iria tirar Suas ovelhas (os crentes judeus) para fora do “curral” judaico e trazê-las para a gloriosa liberdade de Seu “rebanho” no Cristianismo (Jo 10:16). O curral e o rebanho representam dois princípios de reunião completamente distintos. Ambos mantêm as ovelhas reunidas, mas de maneiras totalmente diferentes. Um curral ou aprisco é uma circunferência sem um centro, enquanto um rebanho é um centro sem uma circunferência. Em um curral as ovelhas são mantidas juntas pela cerca que as circunda, o que nos fala dos princípios restritivos do sistema legalista da antiga dispensação, que mantinha os israelitas juntos em uma posição de separação das nações que os cercavam. Em um rebanho não há necessidade de uma cerca, pois o Pastor no meio das ovelhas exerce atração sobre elas, que por sua vez são atraídas por Ele. Portanto as ovelhas são mantidas juntas, mas sobre um princípio completamente diferente. Isso revela o princípio de reunião no Cristianismo (Mt 18:20). Os cristãos nesta nova ordem de coisas se reúnem para adoração e ministério, não por serem forçados a isso, mas por desejarem estar onde Cristo está no meio.
Uma vez que os judeus naturalmente iriam se sentir ofendidos caso alguém entrasse em seu curral e levasse algumas ovelhas para fora, o Senhor declarou que quem fizesse isso precisaria ter a qualificação necessária. Ele reconheceu que alguns impostores (“ladrões e salteadores”) poderiam aparecer sem que tivessem as qualificações ordenadas por Deus, mas Suas ovelhas não os seguiriam, “porque não conhecem a voz dos estranhos” (Jo 10:1, 5). Exemplos disso foram “Teudas” e “Judas” (At 5:36-37).
Todavia, o Senhor veio do modo designado por Deus, o que ele chama de “porta” (Jo 10:2). A porta que dá entrada ao curral, pela qual o Messias deve entrar, é caracterizada pelos profetas do Antigo Testamento.
  •         O tempo de Sua vinda (Dn 9:26 e Sl 102:24).
  •         O lugar de Sua entrada no mundo (Mq 5:2).
  •         Seu nascimento virginal (Is 7:14).
  •         O anúncio de Sua vinda (Is 40:3; Ml 3:1).
  •         Seu modo de vida (Is 53:3).
  •         O caráter do Seu ministério (Is 42:1-3).
  •         Sua capacidade de demonstrar “os poderes do mundo vindouro” (Hb 6:5; Lc 7:22; Is 33:24; 35:5-6; Sl 65:6-7; 89-9; 132:15; 146:7-8).
  •         Sua apresentação à nação (Zc 9:9).

O Senhor entrou no curral do Judaísmo (o sistema judaico instituído por Deus por intermédio de Moisés) exatamente em conformidade com estas especificações. Não havia como não perceber que Ele era o Messias de Israel — “o Pastor das ovelhas” (Sl 23:1; 77:15; 78:67; 80:1; 95:7; 100:3; Is 40:11; Ez 34:31; Zc 11:7-9; 13:7). O Espírito de Deus (“o Porteiro”) Se identificou totalmente com o Senhor, descendo do céu sobre Ele na forma de uma pomba (Jo 1:32-34; 6:27; 1 Tm 3:16) e habitando nEle. Assim o Espírito deu testemunho de que o Senhor Jesus era realmente o verdadeiro Pastor de Israel, pois “a Este o porteiro abre” (Jo 10:3). Portanto, o Senhor, sendo Quem ele era, tinha o direito de introduzir esta mudança dispensacional.
O trabalho do Senhor no curral, que acabou sendo rejeitado (Jo 1:11), era o de atrair o coração das ovelhas a Si, chamando-as “pelo nome” (o que nos fala de intimidade) e guiando-as para fora dali (Jo 10:3). Ao guiar aqueles que eram Seus para fora o Senhor indicava que estava prestes a abandonar toda aquela ordem de culto religioso e levar Suas ovelhas Consigo. Hebreus 13:13 nos diz que Sua atual posição no Cristianismo é “fora do arraial” do Judaísmo — para onde os crentes são também exortados a saírem. O Senhor mencionou que iria usar outros meios de tirar os Seus do curral do Judaísmo — Ele “tira para fora as suas ovelhas” (Jo 10:4). Isso mostra pressão; elas são empurradas para fora. O cego do capítulo anterior teve essa experiência. Ele foi “expulso” do curral; os líderes da nação “expulsaram-no” (Jo 9:34). De uma maneira ou de outra o Senhor estava trabalhando com Suas ovelhas e elas estavam sendo tiradas do curral do Judaísmo para as coisas melhores do Cristianismo.
Aqueles que escutaram esta alegoria não entenderam seu significado (Jo 10:6). A razão é que eles continuavam no curral judaico e existe certo torpor que é consequência de estar naquele sistema (Hb 5:11). Isso levou o Senhor a falar de uma segunda “porta”. Ele disse: “Em verdade, em verdade vos digo que eu sou a porta das ovelhas” (Jo 10:7). Ele era a porta de libertação pela qual uma pessoa era trazida para fora do curral do Judaísmo. Ao fazer tal declaração Ele dava a cada judeu crente a garantia de ser tirado do Judaísmo. Antes disso nenhum judeu tinha permissão para abandonar aquela religião ordenada por Deus, mas agora o próprio Deus, na Pessoa do Filho, estava abrindo a porta e garantindo que fossem libertos daquele sistema.
O Senhor falou então de uma terceira “porta”. Trata-se da porta de entrada na bênção e privilégio cristãos. A entrada a essas coisas também seria por meio dEle. Ele disse: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” (Jo 10:9). Estas bênçãos e privilégios característicos do Cristianismo são:
  •         A salvação da alma (Jo 10:9a).
  •         A liberdade para a adoração e o serviço — “entrará e sairá” (Jo 10:9b).
  •         O alimento espiritual na revelação cristã da verdade — “pastagens” (Jo 10:9c).
  •         O desfrutar de “vida... com abundância” — a vida eterna (Jo 10:10).
  •         A proteção e cuidado do Pastor (Jo 10:10-15).
  •         A união de judeus e gentios em “um rebanho” (Jo 10:16).
  •         A segurança eterna — “nunca hão de perecer” (Jo 10:28-29).

Versículos 10-15 — Uma vez libertadas dos limites do Judaísmo, as ovelhas ficariam sem a proteção do curral, mas isto não significa que Suas ovelhas ficariam sem proteção. O Senhor prometeu que Suas ovelhas, que Ele guiou para fora do curral, seriam cuidadas e protegidas. Como “Bom Pastor” Ele as colocaria sob o Seu divino cuidado. Seu amor e devoção pelo rebanho eram tais que Ele daria Sua vida pelas ovelhas. O Senhor então menciona os pastores mercenários e falsos profetas que atribulam o rebanho. Esses maus obreiros surgiriam no Cristianismo professo se alimentariam dos cristãos e iriam desviá-los. Um “mercenário” é um pastor relapso que irá abandonar o rebanho quando vier o perigo, e um “lobo” (Mt 7:15) é o que irá dividir e espalhar as ovelhas para atender seus interesses pessoais (At 20:29-30). Basta olharmos para a cristandade hoje para vermos isto acontecendo. Muitos líderes estão agindo como “mercenários” e transformando o culto a Deus em negócio (“mercadejando a palavra de Deus” 2 Co 1:17 — RAA). Existem também os “falsos doutores” com caráter de “lobos” (2 Pe 2:1). O Senhor não oculta o fato de que as Suas ovelhas seriam provadas por tais pessoas na esfera cristã, mas no verdadeiro Cristianismo, onde Cristo está no meio do Seu rebanho, Ele iria protegê-las de todos esses assaltos.
Versículo 16 — O Senhor possuía “outras ovelhas” que Ele iria reunir. Não há qualquer menção de que estas seriam tiradas para fora do curral, portanto isso indica que Ele estaria falando de crentes gentios. Estes, juntamente com Suas ovelhas tiradas do curral, formariam “um rebanho” de crentes judeus e gentios.
Portanto, as três portas nesta passagem indicam uma mudança dispensacional:
  •         A porta da profecia concernente ao Messias, por meio da qual Cristo entrou no curral judaico (Jo 10:2).
  •         A porta da libertação para fora do Judaísmo, através da qual Cristo levou os Seus para fora do curral (Jo 10:7).
  •         A porta de entrada nas bênçãos e privilégios do Cristianismo através da qual as ovelhas de Cristo podem viver e servir a Deus (Jo 10:9).




JOÃO 9

JOÃO 9

Este capítulo ilustra uma progressão de luz que ocorre em todo crente que vem das trevas relativas do Judaísmo para a superioridade da luz do Cristianismo. João registrou esta transição em sua epístola dizendo: “Vão passando as trevas, e já a verdadeira luz ilumina” (1 Jo 2:8).
O Senhor anunciou que Ele era “a Luz do mundo” (Jo 9:5), mas as trevas espirituais que prevaleciam sobre o povo eram tais que não podiam ver a Luz. A enfermidade do homem deste capítulo, o qual era “cego de nascença”, ilustra isto. O que o Senhor fez por ele mostra a obra de Deus nas almas que as capacita a enxergar a Cristo pelo que Ele é. Ao ver a Cristo como o Filho de Deus aquele homem já não necessitava do modo judaico de aproximar-se de Deus, e demonstrou isso adorando o Senhor fora do templo, isto é, fora do “arraial” (Jo 9:38; Hb 13:13).
Para que tudo isso ocorresse o Senhor cuspiu na terra e fez “barro”, o que significava a grande verdade de Sua encarnação (Jo 9:6). A saliva que saiu do próprio Senhor, que é Deus, e foi misturada com “o pó da terra”, que nos fala de humanidade (Gn 2:7; 3:19), aponta para o Filho de Deus tornando-se Homem. A aplicação da saliva nos olhos do cego nos fala do poder vivificador de Deus em conceder a vida por meio da qual é ativada a faculdade espiritual para se compreender as coisas divinas (Pv 20:16; At 26:18; Ef 4:17-18). O lavar no “tanque de Siloé (que significa o Enviado)” nos fala de um crente que chega ao entendimento de que o Senhor Jesus é o Enviado do Pai (Jo 9:7). Esta é uma revelação tipicamente cristã.

Após seus olhos terem sido abertos ocorreu no homem que havia nascido cego uma progressão de luz e entendimento — ele passou do mendigar (Jo 9:8) ao adorar (Jo 9:38). Sua experiência ilustra o processo pelo qual passam os fiéis do antigo sistema legalista ao chegarem ao conhecimento e à liberdade devida ao cristão. Inicialmente tudo o que ele sabia do Senhor era que Ele era “o homem chamado Jesus”, mas ele não sabia quem era aquele Homem ou de onde Ele tinha vindo (Jo 9:11). Depois, ao ser questionado, ele respondeu: “[Ele] é Profeta” (Jo 9:17). Em seguida o homem viu o Senhor como Alguém digno de ter “discípulos” (Jo 9:27-28) e mais tarde disse aos judeus que o Senhor Jesus era um Homem “de Deus” (Jo 9:33). Finalmente ele viu o Senhor como o “Filho de Deus”, o que ele realmente era (Jo 9:35-38). Assim vemos na experiência deste homem uma maravilhosa transição das trevas para a luz. Nesse processo o homem sofreu perseguição dos judeus. Isto demonstra que aqueles que caminham na luz da nova dispensação serão perseguidos pelos que andam de acordo com a ordem da velha dispensação (At 13:50; 14:19; 17:5; 1 Ts 2:14-16; Ap 3:9).



JOÃO 8

JOÃO 8

O tratamento que o Senhor dá à mulher flagrada em adultério ilustra outra característica do Cristianismo (Jo 8:2-11). Sob a Lei uma pessoa assim deveria morrer “sem misericórdia”, executada por apedrejamento (Hb 10:28), mas sob a nova dispensação do Cristianismo havia misericórdia demonstrada na forma de um “tempo” para arrependimento (Ap 2:21). Ao não condenar a mulher naquela ocasião o Senhor não estava indicando que Ele era indiferente ao seu pecado, mas que dava a ela a oportunidade de se arrepender e não pecar mais. Esta é uma característica da presente Dispensação da Graça de Deus. Agora Deus, em Sua misericórdia, é “longânimo” para com todos a fim de que “todos venham a arrepender-se” e sejam assim abençoados mediante a fé no Senhor Jesus Cristo (2 Pe 3:9; At 20:21).



JOÃO 7

JOÃO 7

A maior de todas as festas religiosas celebradas pelos judeus era a Festa dos Tabernáculos, uma festa que durava oito dias inteiros. Ela era verdadeiramente o ponto alto de todas as festas que a precediam no sétimo mês de seu calendário. O Senhor esperou até o “último dia, o grande dia da festa” — quando os judeus já haviam experimentado sua religião terrestre em sua totalidade — e então clamou: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba” (Jo 7:37). Ele sabia que eles não ficariam satisfeitos com a mera religião — mesmo que fosse uma religião que tivesse sido dada por Deus — se Ele fosse deixado fora dela. A religião sem Cristo é, no máximo, uma religião vazia e só deixa a alma vazia e sedenta.
O clamor do Senhor nessa ocasião indicava que Ele iria substituir as formas cerimoniais da religião judaica por um relacionamento com Sua própria Pessoa (Cl 2:17). Ele é suficiente para preencher e satisfazer o coração humano. Este fato indica que uma mudança dispensacional estava chegando. João acrescenta que isso ocorreria quando Cristo fosse glorificado e o Espírito Santo fosse dado (Jo 7:39). Estas duas grandes coisas caracterizam o Cristianismo:
  •         Um Homem na glória
  •         O Espírito Santo enviado a este mundo.


Estas são verdades cardeais que distinguem a nova ordem celestial na Dispensação do Mistério. Cristo glorificado nas alturas é o centro do novo programa de Deus; não se trata de Cristo na terra como Messias de Israel, como na antiga dispensação. Cristo seria o Foco do crente, e o Espírito Santo habitando nos crentes seria o poder pelo qual as novas alegrias do Cristianismo seriam possuídas e desfrutadas.



JOÃO 6

JOÃO 6

João registra um incidente ocorrido junto ao mar de “Tiberíades” (Jo 6:1, 23). Nos outros Evangelhos este mar é chamado “mar da Galileia” ou “lago de Genesaré”, mas quando os romanos invadiram a terra e a tomaram dos judeus mudaram os nomes de muitos lugares como sinal de sua posse e domínio. Ao chamar o mar de “Tiberíades” João reconhece que Deus havia permitido (ou até mesmo “enviado” — Mt 22:7) os romanos para atacarem e destruírem a cidade, o templo e o povo, colocando assim Israel de lado. Neste fato aparentemente insignificante temos outra indicação de que a antiga dispensação havia passado.

O assunto deste capítulo é o alimento e satisfação das almas famintas. Aqui vemos o comer da Páscoa (Jo 6:4), o comer dos cinco pães e dois peixes (Jo 6:5-14), o comer do Maná (Jo 6:22-50, e o comer da carne e o beber do sangue de Cristo, o Filho do Homem (Jo 6:51-58)). O primeiro caso é uma figura que foi cumprida com a morte de Cristo (1 Co 5:7). O segundo é uma figura de uma das muitas bênçãos que o Senhor iria conceder ao mundo no dia milenial — ou seja, abolir a fome (Sl 132:15; 146:7 etc.). O terceiro (Maná) é um tipo que se cumpriu na vinda do Senhor do céu como o “Pão vivo” (Jo 6:51). Em todas estas coisas vemos Cristo como o cumprimento das figuras e profecias do Antigo Testamento. Isto nos ensina que quando a velha dispensação terminasse e tivesse início a nova dispensação, as Escrituras do Antigo Testamento não seriam esquecidas; elas são a Palavra de Deus e assim devem ser consideradas. Aprendemos também da maneira como o Espírito de Deus aplica as Escrituras do Antigo Testamento, ao fazer referência a elas no Novo Testamento, mostrando que devem ser entendidas por seu ensino de tipos e princípios morais (Rm 15:4; 1 C 10:11).


JOÃO 5

JOÃO 5

A bênção na nova dispensação não seria sobre o princípio das obras para merecer o favor de Deus (como era sob a Lei), mas sobre o princípio da graça e do favor imerecido (Rm 4:4-5). Isto é ilustrado na diferença entre a maneira como a bênção estava disponível aos que estavam à beira do tanque de “Betesda” e o modo como a bênção chegou até o “enfermo” incapaz, que foi curado pelo Senhor.
A cena à beira do tanque é uma figura do sistema legalista da antiga dispensação (Jo 5:1-4). O tanque tinha “cinco alpendres” que são uma figura dos cinco livros de Moisés. Em tempos determinados um anjo descia e agitava a água, e o primeiro que atravessasse os cinco pórticos e descesse ao tanque recebia a bênção. A bênção estava ali, porém condicionada a algo que precisava ser feito para obtê-la. Isso ilustra o sistema baseado em obras da Lei, que dizia “faze isso, e viverás” (Lc 10:28). Uma pessoa naquele sistema legal precisava guardar cerca de 613 exigências dos cinco livros de Moisés e, se conseguisse, receberia a bênção.
Em contraste a isso, com a vinda do Filho de Deus (Seu primeiro advento) as bênçãos gratuitas ficariam disponíveis a todos os que cressem, sem exigências legalistas (Rm 4:4-5; 11:6; Ef 2:9; Tt 3:5). Isto é ilustrado no homem impotente sendo abençoado sem ter de vencer os cinco degraus e entrar no tanque (Jo 5:5-16). Durante muitos e longos anos aquele homem lutou para conseguir receber a bênção do tanque, e não foi capaz. Mas com a vinda do Filho de Deus ele não precisou fazer coisa alguma! Isto aponta para o fato de que na nova dispensação seria colocado um fim à guarda da Lei. “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4).

É significativo que este milagre tenha acontecido no dia de sábado, o que os Fariseus consideravam uma violação daquele dia. Ele sugere que a graça não pode ficar presa ao sistema legal e que o sábado já não mais seria observado na Dispensação da Graça. Cristo “até do sábado é Senhor” (Mt 12:8) e, portanto, maior que o sábado. Ele tinha poder para trabalhar em prol da bênção do homem tanto naquele dia quanto em qualquer outro.



JOÃO 4

JOÃO 4

O Senhor ensinou a mulher à beira do poço três coisas bastante significativas que iriam assinalar a mudança da velha ordem de adoração da antiga dispensação para a nova ordem de adoração no Cristianismo. Isso viria como consequência de os crentes terem a “água viva” do Espírito de Deus habitando neles (a “fonte”) como o poder para a nova adoração (Jo 4:10, 14). A água que sai da fonte tem energia em si mesma e é uma figura do poder do Espírito no crente.
Primeiro, haveria um novo lugar de adoração que não seria nem “neste monte” (Gerizim), nem em “Jerusalém”. Esses eram lugares na terra, mas as passagens em Hebreus 8:1-2; 9:11, 23-24 e 10:19-22 indicam que o novo lugar de adoração no Cristianismo é no santuário celestial na própria presença de Deus. Portanto o centro de adoração do Judaísmo, um centro geográfico terrestre, deixaria de existir.
Em segundo lugar, havia uma nova revelação em conexão com a Pessoa a ser adorada. No Judaísmo Deus era conhecido como Jeová e Deus Todo-Poderoso, sendo adorado como tal, mas agora no Cristianismo Ele seria adorado como “o Pai” de nosso Senhor Jesus Cristo. Este é um relacionamento muito mais íntimo com Deus.
Em terceiro lugar, haveria um novo caráter de adoração. A adoração no Judaísmo era essencialmente terrena e auxiliada por instrumentos musicais físicos, além de ser efetuada por meio de um sistema de rituais e cerimônias. Mas a nova ordem de adoração no Cristianismo seria algo puramente espiritual. Os crentes no Senhor Jesus Cristo iriam adorar o Pai em “espírito” (espiritualmente — Jo 6:63) e em conformidade com a nova revelação da “verdade” que acompanharia a nova dispensação. No Cristianismo oferecemos “sacrifícios espirituais” auxiliados pela presença do Espírito Santo que em nós habita (1 Pe 2:5; Fp 3:3), em contraste com as “várias abluções e justificações da carne” da ordem judaica (Hb 9:10). Isto é feito na própria presença de Deus (Hb 10:19) e trata-se de uma bênção que Israel não teve. Considerando que os cristãos devem adorar “em espírito e em verdade”, podemos permanecer sentados em silêncio enquanto de nossas almas e espíritos sai um genuíno louvor a Deus Pai através do Espírito Santo. Esta é a verdadeira adoração celestial.
A adoração judaica da antiga dispensação apela para os sentidos humanos, pois ela é um meio terreno e sensual de se aproximar de Deus. Tal adoração é estimulada pelos sentidos, como vemos nos exemplos a seguir:
  • Visão — a grandiosidade do Templo (1 Rs 10:4-5; Mc 13:1; Lc 21:5).
  • Olfato — a queima de incenso que produzia uma atmosfera envolvente (Êx 30:24-38).
  • Paladar — os sacrifícios que eram comidos (Dt 14:26).
  • Audição — a bela música produzida pela orquestra e com a participação do coral (1 Cr 25:1, 3, 6-7).
  • Tato — a participação das oferendas de maneira física, com danças e o levantar das mãos (2 Sm 6:13-14; 1 Rs 8:22).


É significativo que não encontramos em lugar algum do livro de Atos ou das epístolas evidências de que os cristãos adorassem o Senhor usando rituais ou instrumentos musicais. Nas Escrituras os únicos dois instrumentos que vemos os cristãos usando na adoração são os seus “corações” (Cl 3:16; Ef 5:19) e seus “lábios” (Hb 13:15).



JOÃO 3

JOÃO 3

Nos versículos 9-10 o Espírito de Deus apresenta o assunto da “vida eterna” como sendo a porção daqueles que viriam a receber o Senhor na nova dispensação. Isto é algo que vai além do “nascer de novo” que os israelitas crentes já possuíam e que Nicodemos deveria conhecer por intermédio do profeta Ezequiel. Em essência, ambas as coisas têm a ver com a posse de vida divina, mas, como já foi observado, ter vida eterna é possuir esta vida em uma comunhão consciente com o Pai e o Filho (Jo 17:3). A posse disso exigia que o Filho viesse revelar o Pai (Jo 1:18; 14:9), que a redenção fosse consumada (Jo 3:14-16) e que o Espírito Santo (a “fonte”) viesse habitar no crente (Jo 4:14).

Estas coisas não eram conhecidas e nem possuídas pelos da antiga dispensação. Portanto, os santos do Antigo Testamento não poderiam ter possuído vida eterna. Eles eram nascidos de novo e por esta razão possuíam vida divina, e agora estariam a salvo com Cristo no céu. Os cristãos são igualmente nascidos de novo, pois é este o meio pelo qual entram no reino de Deus (Jo 3:5), mas possuem algo mais — eles têm aquela vida eterna em um relacionamento consciente com o Pai e o Filho. Esta é a chamada vida eterna. Trata-se de uma bênção celestial e elemento distinto que identifica a nova dispensação. Ao introduzir a vida eterna o Senhor estava demonstrando que as “coisas terrestres” dariam lugar às coisas “celestiais” (Jo 3:12).


JOÃO 2

JOÃO 2

O milagre da transformação da água em vinho, que ocorreu no casamento em Caná da Galileia, ilustra outra característica da nova dispensação. O “vinho” nas Escrituras costuma representar alegria (Jz 9:13; Sl 104:15). O problema na festa era que o vinho havia acabado. Isto nos fala da antiga ordem de coisas — Israel — que fracassou nas mãos dos homens. Quando o vinho velho acabou o Senhor introduziu o vinho novo, que era melhor. Isto indica que as alegrias espirituais que viriam na nova dispensação seriam superiores àquelas que podiam ser experimentadas na antiga dispensação.

Nos versículos 13-17 o Senhor expulsou do templo os obreiros corruptos. Aquilo era uma ação simbólica indicando que Deus estava prestes a colocar um fim na ordem corrupta do culto judaico. O Senhor falou então de Sua ressurreição (Jo 2:18-22). Ainda que eles “destruíssem” o Seu corpo por meio da morte, Ele ressuscitaria o “templo do Seu corpo” em “três dias” (Jo 2:19, 21). Portanto a nova ordem que estava para ser introduzida seria fundamentada na ressurreição de Cristo.



JOÃO 1

JOÃO 1

O Evangelho de João começa nos apresentando a Pessoa de Cristo, sobre Quem é fundado o Cristianismo. Após apresentar várias de Suas grandes glórias (Jo 1:1-14), o apóstolo fala de três coisas que caracterizam a dispensação cristã, todas elas resultantes de Cristo haver encarnado, a redenção ter sido consumada, e o Espírito Santo ter vindo:
  • Os homens são agora capazes de conhecer e contemplar a glória do unigênito Filho de Deus (Jo 1:14).
  • A disposição de Deus para com o homem em graça é agora feita conhecida através do evangelho. A “Lei”, outrora dada por Moisés, foi agora substituída por “graça e verdade”, que vieram por meio de Jesus Cristo (Jo 1:15-17).
  • Agora está disponível uma completa declaração de Deus como sendo o Pai (Jo 1:18).
O apóstolo João registra então alguns incidentes que ocorreram durante os dias do ministério de João Batista e que apontavam para uma mudança de dispensações surgindo no horizonte. Considerando que a antiga ordem de coisas no Judaísmo havia sido corrompida, o batismo de João Batista significava que era preciso uma dissociação moral de tudo aquilo por aqueles que tinham fé, e isso por meio do batismo de arrependimento. Se a nação se submetesse àquele batismo e desse frutos de arrependimento, ela não seria colocada de lado por Deus (Jo 1:19:28). É significativo que João tenha adotado uma posição “além do Jordão” para ministrar o seu batismo. Isso indica uma separação moral do estado de coisas no centro judaico em Jerusalém.
João Batista é então visto apresentando o Senhor Jesus, “o Cordeiro de Deus” e “Filho de Deus”, a seus próprios discípulos, os quais eram devotos da dispensação passada enquanto aguardavam pelas promessas do reino conforme tinham sido apresentadas pelos profetas do Antigo Testamento. Eles passaram a seguir o Senhor depois disso (Jo 1:29-34). Estes títulos do Senhor coincidem com a revelação da Sua Pessoa na atual dispensação. Por estar em sintonia com os pensamentos de Deus, João Batista se alegrava em passar seus discípulos para o Senhor (Jo 1:35-37). Tal mudança é significativa e aponta a transição para a nova ordem no Cristianismo que estava chegando.

O apóstolo João passa a mostrar que o próprio Cristo seria o novo Centro e lugar de reunião na nova ordem de coisas. A Sua presença seria conhecida, não no templo de Jerusalém, mas em uma humilde casa onde os crentes estivessem congregados em torno dele (Jo 1:38:42).



O Evangelho de João assinala a transição da Antiga para a Nova Dispensação

O Evangelho de João assinala a transição da Antiga para a Nova Dispensação

Enquanto as epístolas apresentam o caráter singular da nova iniciativa de Deus em formar a Igreja, com suas bênçãos, privilégios e promessas especiais, o Evangelho de João e o livro de Atos enfatizam a transição da velha para a nova dispensação. O Evangelho de João nos mostra o embrião do Cristianismo, antes que o próprio Cristianismo e a Dispensação do Mistério começassem de fato. Em quase todos os capítulos deste evangelho há elementos do Cristianismo que são, ora ensinados, ora ilustrados para indicar a mudança dispensacional que estava para acontecer.
João é o único escritor do Novo Testamento que escreveu depois de a nação de Israel ter sido literalmente colocada de lado, o que aconteceu no ano 70 D.C. Ele escreveu por volta do ano 90 D.C. quando o Cristianismo já estava completamente estabelecido e a nação judaica tinha sido desfeita. Por ocasião de sua redação já não existia mais Judaísmo — a cidade de Jerusalém e o santuário haviam sido destruídos (Dn 9:26; Mt 22:7). O Espírito de Deus guiou João para apresentar a vida do Senhor e o Seu ministério da perspectiva singular de quem olhava para trás através das lentes do Cristianismo. Ao contrário dos outros evangelistas, João tem seu foco em determinadas mudanças dispensacionais no ministério do Senhor que enfatizam o fato de que, no horizonte, já se vislumbrava uma transição do Judaísmo para o Cristianismo.
À medida que os capítulos vão sendo apresentados percebemos vários elementos e ilustrações do Cristianismo feitas pelo Espírito Santo. Estas características são do Cristianismo original, e não daquele corrompido pelas mãos dos homens. Ao mesmo tempo, diversas características importantes do Judaísmo são claramente deixadas de lado. Por exemplo, as festividades à quais o Senhor compareceu em Jerusalém são chamadas de “páscoa dos judeus” e “festa dos judeus” (Jo 2:12; 5:1; 6:4; 7:2 etc.); elas já não são vistas como Festas de Jeová como eram no passado. Além disso, em João 10:34 e 15:25 o Senhor diz “vossa lei” e “sua lei [deles]”. Aquela era a Lei de Deus, mas agora, em razão do mau uso que os judeus fizeram dela, já não era mais considerada assim. Paulo faz o mesmo em Gálatas 1:13 ao chamar de “Judaísmo” ou “religião dos judeus” o outrora venerado culto a Deus — literalmente “na religião dos judeus”. Repare também que há uma mudança em Mateus 21:13, onde o Senhor diz “Minha casa”, e Mateus 23:38, onde está “vossa casa”. Assim João escreve da perspectiva da antiga dispensação como tendo sido colocada de lado e não sendo mais reconhecida por Deus, até mesmo enquanto o Senhor ministrava na terra.



Promessas Distintas Dadas à Igreja

Promessas Distintas Dadas à Igreja

Além das bênçãos e privilégios especiais que a Igreja recebeu os cristãos também receberam “grandíssimas e preciosas promessas” (2 Pe 1:4). No Antigo Testamento Abraão e outros receberam grandes promessas, mas o apóstolo Pedro nos diz que “grandíssimas” promessas foram reservadas para aqueles na Igreja. Mais uma vez isto aponta para o fato de a Igreja ter sido escolhida dentre todos os outros grupos de santos e favorecida de maneira especial. A seguir apresentaremos algumas destas promessas.
Segurança eterna (Jo 10:27-28). Temos a promessa de estarmos eternamente seguros. Os santos do Antigo Testamento não possuíam esta certeza (Sl 51:11, etc.).
Intercessão de Cristo como Sumo Sacerdote e Advogado (Rm 8:34). Cristo prometeu nos manter na senda da fé de uma maneira tal que os santos do Antigo Testamento nunca conheceram. Temos a Ele intercedendo por nós nas alturas como nosso Sumo Sacerdote em nossa peregrinação espiritual da terra ao céu. Ele é um Homem na glória que caminhou neste mundo e foi tentado (testado) de todas as maneiras que um homem justo poderia ser testado. Por isso Ele conhece, sente e se compadece de nós em cada tribulação que experimentamos em nosso caminho (Hb 4:14-15). Se necessário, Ele também atua como nosso Advogado diante do Pai no caso de falharmos em nosso andar, restaurando-nos assim à comunhão com o Pai (2 Jo 2:1-2). O Senhor não poderia ter sido um Sumo Sacerdote para os santos do Antigo Testamento porque para ser sacerdote alguém precisaria ser um homem e ter experimentado a vida na terra como homem (Hb 5:1-2). Naquele tempo Cristo ainda não havia se tornado um Homem.
O Arrebatamento (Jo 14:2-3; 1 Ts 4:15-18; 1 Co 15:51-57). Temos a promessa de sermos glorificados como Cristo e levados para o lar no céu no Arrebatamento, sem experimentarmos a morte! É esta a “bem-aventurada esperança” do cristão (Tt 2:13). Os santos do Antigo Testamento não tinham esta promessa dada a eles; nada sabiam sobre este aspecto da vinda do Senhor, e tampouco tinham a esperança da glorificação.
Em suma, o Senhor prometeu nos manter eternamente seguros, nos mantêm em comunhão Consigo e com o Pai ao longo do caminho da fé, e nos levará para o lar celestial. Estas são promessas maiores que qualquer coisa que o Senhor tenha prometido aos santos do Antigo Testamento.

A grande conclusão que tiramos de todas estas bênçãos, privilégios e promessas é que a Igreja (os cristãos) foram agraciados com um lugar de especial favor diante de Deus. O apóstolo Paulo chama estas coisas de “riquezas incompreensíveis de Cristo” (Ef 3:8).



Privilégios Distintos da Igreja

Privilégios Distintos da Igreja

Com base nestas grandes bênçãos, a Igreja recebeu privilégios muito maiores que os recebidos pelos santos de outras épocas. Damos a seguir apenas três exemplos destes privilégios.
Acesso ao “Santuário” (Hb 4:14-16; 10:19-22). Os cristãos, por formarem um grupo de sacerdotes celestiais (1 Pe 2:5; Ap 1:6), têm acesso à própria presença de Deus — no mais santo lugar, no santuário celestial (Hb 8:1-5; 9:11). Este é um privilégio que nenhum dos filhos de Aarão teve no Judaísmo. O sumo sacerdote do sistema judaico podia entrar no santo lugar do santuário terrestre “uma vez no ano, não sem sangue”, o qual ele espargia sobre o propiciatório (Hb 9:7). Isto demonstrava que “o caminho do santuário”, tal qual o temos no Cristianismo, ainda “não estava descoberto enquanto se conservava em pé o primeiro tabernáculo” naquela época (Hb 9:8). O sumo sacerdote só entrava ali uma vez por ano, mas nós entramos no lugar celestial com nossas orações e louvor em qualquer tempo. Além disso, o sumo sacerdote entrava no santo dos santos em tremor e temor, mas nós podemos entrar com santa “ousadia” e “em inteira certeza de fé” (Hb 10:19, 22). Todas as outras pessoas naquele sistema judaico adoravam a Deus de longe, fora do véu, por meio de um sistema de ordenanças envolto em muito ritual. Os cristãos, como um todo, podem se dirigir a Deus com intimidade e entendimento — o que é indicado pelo clamor, “Aba, Pai” (Rm 8:15; Gl 4:6). “Aba” indica intimidade e “Pai” entendimento.
Discernimento dos propósitos de Deus (Ef 1:8-10). Por serem filhos de Deus, os cristãos foram informados dos segredos do coração de Deus que ficaram escondidos dos santos das épocas passadas (Rm 16:25; Ef 3:2-5; Cl 1:25-27). A intenção de Deus foi que esta privilegiada companhia de filhos (a Igreja) ficasse ciente do Seu propósito eterno. Portanto, foi do agrado do Pai desvendar a nós a verdade do “grande mistério” (Ef 1:4-8; 5:32) que Ele “derramou sobre nós com toda a sabedoria e entendimento” (Ef 1:8 NVI). Consequentemente nos foi dado saber o que Ele está fazendo no mundo agora, tendo em vista o mundo vindouro — o Milênio. Ele deu à Igreja um discernimento especial quanto ao Seu plano de exibir publicamente a glória do Seu Filho naquele futuro dia milenial. Assim a Igreja se tornou depositária do conselho de Deus a respeito de Seu propósito para o futuro.
Este é um tremendo privilégio que os santos do Antigo Testamento não tinham, pois até agora (o Dia da Graça) ele era um “mistério [segredo] que desde tempos eternos esteve oculto” (Rm 16:25). É triste precisarmos admitir que, devido ao estado de ruína no testemunho cristão, e mesmo tendo estas coisas sido reveladas nas Escrituras à Igreja, muitos cristãos não conhecem estas revelações tão maravilhosas!

Reinar publicamente com Cristo (Lc 22:29; 2 Tm 2:12; Ap 22:5 — “e reinarão para todo o sempre”). Como reis (Ap 1:6), os cristãos têm a perspectiva de reinarem com Cristo no reino milenial. Os santos do Antigo Testamento serão glorificados juntamente com todos os santos celestiais naquele dia (Hb 11:40). Eles estão designados para serem amigos do Noivo (Jo 3:29), mas não tomarão parte na administração do mundo vindouro; eles não reinarão com Cristo. Este é um privilégio muito especial dado apenas à Igreja (Ap 21:9-22:5).



As bênçãos características da Igreja

As bênçãos características da Igreja

Existem bênçãos especialmente dadas a essa companhia “chamada para fora” (a Igreja), as quais são exclusivas desse grupo de crentes. Nenhum crente nos tempos do Antigo Testamento, ou no futuro período do reino milenial, jamais teve ou terá estas “bênçãos espirituais” (Ef 1:3). Portanto, aqueles que fazem parte da Igreja (os cristãos) foram selecionados dentre todos os filhos de Deus como possuindo um lugar privilegiado diante dEle. Eles foram escolhidos por Deus para ocuparem o lugar mais próximo possível de relacionamento com Cristo que Deus poderia proporcionar (como corpo e esposa de Cristo). Dentre todas as pessoas abençoadas da imensa família de Deus, apenas os cristãos são Seus “primogênitos” (Hb 12:23). O termo “primogênito” refere-se àquilo que é classificado como primeiro e tem preeminência sobre todos os outros (Sl 89:20-27; Jr 31:9; Cl 1:15, 18, etc.).
Existem bênçãos que pertencem a toda a família de Deus; que são de propriedade comum a todo o Seu povo, seja ele formado pela Igreja ou pelos santos do Antigo Testamento, do milênio etc. Todos estes possuem o novo nascimento, um lugar na família de Deus, comunhão com Deus de acordo com a luz que lhes foi dada, etc. Os cristãos também possuem estas bênçãos, mas possuem ainda muito mais. As bênçãos dos cristãos são de um caráter muito mais elevado e estão fundamentadas na redenção já consumada e na aceitação que o Senhor desfruta à destra de Deus. A posição que o Senhor Jesus ocupa à destra de Deus é indicada nas epístolas de Paulo pela expressão “Cristo Jesus”. Quando as Escrituras dizem “Jesus Cristo” estão se referindo ao Senhor descendo dos céus para fazer a vontade de Deus em cumprir a redenção por meio da morte; quando as Escrituras dizem “Cristo Jesus” elas estão se referindo a Ele ressuscitado e elevado às alturas à destra de Deus.
O que é maravilhoso na graça de Deus é que os cristãos são mencionados como estando “em Cristo Jesus” — não “em Jesus Cristo”. Isto significa que nossas conexões com Ele não são como as que Ele tinha neste mundo com Israel, mas do modo com Ele está agora, como a Cabeça ressuscitada e ascendida da nova raça na criação (2 Co 5:16-17). Estar “em Cristo” significa que ocupamos o mesmo lugar de aceitação que pertence a Cristo diante de Deus! A mesma medida de Sua aceitação à destra de Deus é a que nos pertence — pois permanecemos no lugar que pertence a Ele diante de Deus (1 Jo 4:17). Olhamos para o alto e vemos um Homem na glória com todo o favor de Deus colocado sobre Ele, e sabemos que esse é também o nosso lugar. Que posição maravilhosa esta em que a graça soberana nos colocou!
Nós não apenas estamos “em Cristo”, como também todas as bênçãos singulares que pertencem ao cristão são ditas como sendo “em Cristo”. Isto significa que nossas bênçãos são encontradas no Homem que está assentado à destra de Deus. Algumas destas bênçãos são apresentadas a seguir.
Redenção em Cristo Jesus (Rm 3:24). Significa que compreendemos que fomos resgatados e libertados da condenação que nossos pecados demandavam, do poder do pecado, de Satanás e do mundo. Esta redenção está fundamentada na obra consumada de Cristo e na certeza de estarmos em uma posição diante de Deus onde tais demandas já não têm poder sobre nós.
Israel, no Antigo Testamento, não possuía tal bênção. Eles sabiam da redenção apenas em um sentido físico, havendo sido redimidos do jugo da escravidão no Egito (Êx 6:6). Nossa redenção é algo espiritual em conexão com a posição que Cristo ocupa nas alturas.
Perdão de pecados em Cristo (Rm 4:7; Ef 4:32). Isto se refere ao fato de o crente conhecer de forma consciente que foi perdoado de seus pecados por compreender o que Deus fez por meio da obra consumada de Cristo na cruz. O resultado é que sua consciência foi purificada de sua culpa e esta já não o acusa de seus pecados — ao menos naquilo que diz respeito ao seu destino eterno (Hb 9:14). Com base naquilo que Cristo consumou ao fazer a expiação, os crentes compreendem que Deus jamais irá trazer à tona seus pecados para juízo, pois se o fizesse seria injusto, uma vez que Cristo já pagou a dívida total por eles.
Os israelitas nos tempos do Antigo Testamento não conheciam este aspecto do perdão. A eles era oferecido o perdão governamental, com a condição de apresentarem a Deus oferendas pelo pecado (Lv 4). O perdão governamental ou administrativo é um perdão que é concedido por Deus em função do Seu modo administrativo de agir para com o Seu povo (caso eles tivessem cometido algum pecado), e é baseado no arrependimento que a pessoa demonstra em relação àquele pecado. Trata-se de um perdão conectado apenas à vida aqui na terra e nada tem a ver com o destino eterno daquela pessoa. Os santos do Antigo Testamento não conheciam este aspecto cristão do perdão de pecados (perdão eterno) que o Evangelho da Graça de Deus anuncia. Ele foi primeiramente anunciado pelo Senhor após a redenção ter sido consumada (Lc 24:47). Consequentemente, aqueles que viviam nos tempos do Antigo Testamento não tinham a certeza de seus pecados terem sido perdoados e nem a consciência purificada do modo como os cristãos hoje têm (Sl 25:7, 18).
Justificação em Cristo Jesus (Rm 4:25-5:1; Gl 2:16-17). A justificação significa que fomos livrados de todas as acusações que pesavam contra nós por termos sido introduzidos em uma nova posição diante de Deus em Cristo. Os cristãos são “justificados em Cristo” (Gl 2:17); o resultado disto é que Deus já não nos enxerga como pecadores. Para que os cristãos possuíssem esta bênção o Senhor precisou morrer e ressuscitar de entre os mortos. O apóstolo Paulo disse que o Senhor “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” (Rm 4:25). Ele também afirmou que o Senhor precisava ser recebido “à direita de Deus” para nos assegurar esta nova posição na presença de Deus — que é aonde a justificação leva o crente (Rm 8:33-34).
Os santos do Antigo Testamento não poderiam ter tido esta bênção, pois naquele tempo Cristo ainda não havia ressuscitado e nem tinha ascendido à Sua posição diante de Deus nas alturas. Os santos do Antigo Testamento eram considerados justos com base em sua fé — como foi o caso de Abraão (Rm 4:1-3) — mas eles não eram justificados no sentido cristão da justificação.
O dom da habitação do Espírito em Cristo — Isto tem a ver com o crente receber o Espírito Santo. Também se refere à unção, ao selo e penhor do Espírito. (Rm 5:5; 2 Co 1:21-22; Ef 1:13; 1 Ts 4:8; 1 Jo 3:24). Como consequência os cristãos possuem o Espírito de Deus “neles” e também “com” eles, e isto é algo que durará “para sempre” (Jo 14:16-17).
Esta é outra bênção que os santos de outras épocas não possuíam, pois Cristo precisava ser primeiro glorificado para que o Espírito pudesse ser enviado (Jo 7:39). O Espírito de Deus descia sobre os crentes no período do Antigo Testamento a fim de capacitá-los para uma determinada obra e depois partir (2 Pe 1:21; Nm 11:17; Jz 14:6 etc.). Mas o Espírito de Deus nunca veio habitar nos crentes naquela época do modo como Ele habita hoje na Igreja.
Reconciliação em Cristo Jesus (Rm 5:10; Ef 2:13; Cl 1:21). A reconciliação tem a ver com o fato de Deus trazer de volta para Si as Suas novas criaturas em uma nova condição de paz e harmonia (1 Pe 3:18). Isto foi feito para que a comunhão entre Deus e os homens crentes pudesse ser retomada com base na redenção. Como consequência, a comunhão agora entre Deus e os homens redimidos ocorre em um plano muito mais elevado que aquela que Deus tinha com os crentes nos tempos do Antigo Testamento. Agora Deus pode se deleitar na comunhão com Suas criaturas de uma maneira como Ele nunca antes conseguiu desfrutar (Cl 1:21-22), e também de modo a fazer com que os crentes se sintam felizes e confortáveis em Sua presença a fim de poderem se gloriar em Deus (Rm 5:10-11).
Os santos do Antigo Testamento não possuíam esta bênção. Eles tinham comunhão com Deus, mas não podiam se gloriar em Deus desta maneira, pois não conheciam o perdão e a justificação que fazem parte da grande obra de reconciliação.
Santificados em Cristo Jesus (Rm 6:19; 1 Co 1:2). Santificação significa separação. No sentido cristão da palavra, ela tem a ver com o fato de o crente ter sido separado pelo novo nascimento (1 Co 6:11; 2 Ts 2:13; 1 Pe 1:2) e pela obra consumada de Cristo (At 26:18; Rm 1:1; 1 Co 1:2, 30; Hb 10:10; 13:12), e o crente estar assim em um lugar santo com Deus. A santificação tem a ver com uma obra vital e interior na alma, pela qual os crentes são feitos santos por terem uma nova vida comunicada a eles. Eles estão assim separados da massa de homens incrédulos que caminha para a destruição eterna (Sl 90:3).
Israel, como nação, era santificada e, portanto, separada das outras nações da terra (Êx 31:13; 33:16; Dt 32:8; 1 Rs 8:53), mas sua santificação era puramente exterior. Não era o resultado de suas almas terem sido salvas (1 Pe 1:9). Eles deviam se santificar na prática (Êx 19:14 etc.), mas isto tampouco fazia com que tivessem sido separados para a bênção eterna. A santificação “em Cristo” é algo completamente diferente e só pode ser conhecida no Cristianismo.
Vida eterna em Cristo Jesus (Rm 6:23; 2 Tm 1:1). A vida eterna tem a ver com o fato de o crente possuir vida divina em sua alma, associada a uma compreensão do relacionamento especial que desfruta com o Pai e o Filho através do Espírito Santo (Jo 17:3). Para que o crente tivesse este aspecto da vida divina era necessário que o Filho de Deus tivesse vindo a este mundo para revelar o Pai (Jo 1:18; 14:9), que a redenção tivesse sido consumada (Jo 3:14-15) e que o dom do Espírito de Deus tivesse sido dado (Jo 4:14). A “vida eterna” não indica meramente uma vida divina de duração ilimitada, mas se refere ao caráter dessa vida. Trata-se da própria vida que o Pai e o Filho, juntos, desfrutaram em sua comunhão desde a eternidade passada. É por possuir esta vida que o cristão pode desfrutar de comunhão com o Pai e com o Filho (1 Jo 1:3).
Os santos do Antigo Testamento tinham vida divina, uma vez que eram nascidos de novo. Portanto eles faziam parte da família de Deus. Todavia, eles não tinham este caráter da vida, pois Cristo ainda não tinha vindo revelar o Pai, e nem a redenção tinha sido consumada ou tampouco o Espírito sido dado. Os santos do Antigo Testamento tinham a esperança de viver para sempre na terra sob o reinado de seu Messias. Daniel chama a isto de “vida eterna” (Sl 133:3; Dn 12:2), mas não se trata da vida eterna como é apresentada no Novo Testamento. Portanto, eles desfrutavam de comunhão com Deus, mas não a comunhão existente entre o Pai e o Filho.
Libertação em Cristo Jesus (Rm 8:1-2). Por meio “da lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus” o cristão dispõe de uma libertação real do poder da natureza pecaminosa que existe nele. Isto se refere à presença do Espírito de Deus que habita em si e trabalha no crente para anular as inclinações da carne, capacitando-o a viver uma vida santa, a qual é livre da interferência da carne. Na prática, a sua vitória sobre a carne depende de ele viver “para as coisas do Espírito”, que são os interesses de Deus e de Cristo (Rm 8:5-6, 13).
Os santos do Antigo Testamento também não contavam com esta bênção. Eles permaneciam mais ou menos no estado do homem descrito em Romanos 7:7-25. Eles eram nascidos de Deus, porém não tinham o poder do Espírito trabalhando neles para refrear a carne. Consequentemente eles viviam no temor de que a carne pudesse tomar o controle de suas vidas (Sl 19:12-13 etc.).
Filiação em Cristo Jesus (Rm 8:14-15; Gl 3:26; 4:5-7). A palavra “filiação” no grego tem o significado de “lugar de filho” (Gl 4:5; Ef 1:5). Como filhos, os cristãos foram colocados no mesmo lugar em que o próprio Filho permanece diante de Deus. Ocupamos um lugar no qual Deus nos fez “agradáveis a Si no Amado” (Ef 1:6). Ocupamos este lugar por causa de nossa conexão com Cristo — o “Filho do Seu amor” (Cl 1:13). Por isso o termo vai muito além de meramente “aceitos” (como está Ef 1:6 na versão inglesa King James) e denota o desfrutar de uma afeição especial vinda do Pai. Por estar no lugar em que Cristo está o cristão permanece diante de Deus em uma posição que está muito acima daquela ocupada por anjos, acima até da posição ocupada pelo arcanjo Miguel! A grande bênção da “filiação” é que desfrutamos:
·         Do lugar de favor do Filho (Ef 1:6).
·         Da vida — a vida eterna do Filho (Jo 17:2).
·         Da liberdade que o Filho tem diante do Pai (Rm 8:14-16).
·         Da herança do Filho (Rm 8:17).
·         Da glória do Filho (Rm 8:18; Jo 17:22).
Um lugar assim de privilégio na família de Deus não foi dado aos santos do Antigo Testamento. Em Gálatas 4:1-7 o apóstolo Paulo mostra a diferença. Ele dá o exemplo de uma família israelita, assinalando a diferença entre um “menino” e um “filho” na família. Ele indica que aqueles que foram convertidos do Judaísmo por crerem no evangelho são como “meninos” que atingiram certa idade. Eles deixaram a posição de crianças e agora estão na posição de “filhos” na família de Deus. A cerimônia judaica do Bar mitzvah ilustra isto. Em uma família de judeus, quando um menino chega aos treze anos de idade ele é formalmente elevado da condição de criança para a de filho na família, desfrutando então de maior liberdade e privilégios no lar. Essa mudança de posição ilustra o lugar que ocupa o cristão na família de Deus, comparada àquela ocupada pelos judeus nos tempos do Antigo Testamento. Observe a mudança de “nós” para “vós” nos pronomes do versículo 5 para o 6 de Gálatas 4: “Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de [nós] recebermos a adoção de filhos. E, porque [vós] sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai”. No primeiro caso, “nós” se refere aos crentes judeus, e no segundo, “vós” aos crentes gentios.
Herdeiros da herança em Cristo (Rm 8:17; Ef 1:10-11; Gl 3:29). Ao cristão foi dada uma herança que é muito maior que aquela prometida a Israel. A herança do cristão inclui todas as coisas criadas nos céus e na terra. Essa herança é compartilhada igualmente com Cristo, pois Sua herança também nos pertence. A herança em si não é uma bênção espiritual, mas o direito de herança para reinar com Cristo sobre tudo; uma bênção ímpar que pertence apenas aos cristãos. Israel receberá sua herança literal quando tomar posse da terra que foi prometida a Abraão, ou seja, aproximadamente oitocentos mil quilômetros quadrados. A herança do cristão é todo o universo!
Nova Criação em Cristo Jesus (Rm 8:29; Gl 6:15; 2 Co 5:17). Quando Cristo ressuscitou de entre os mortos Ele foi feito Cabeça de uma nova raça humana (Cl 1:18), à qual pertencemos por sermos do mesmo tipo e substância do próprio Cristo (Hb 2:11-13; Gl 3:29 — “de Cristo”). Sendo assim, somos perfeitamente adequados para sermos Suas companhias eternas nos céus. A formação dessa raça é um trabalho em andamento. Temos a nova vida em nossa alma agora mesmo, e já ocupamos uma nova posição diante de Deus sob Cristo como Cabeça. Mas ainda existe um trabalho de conformidade moral com Cristo que está sendo feito em nós pelo Espírito e ainda não está terminado (2 Co 3:18). Além disso, os nossos corpos aguardam para serem transformados. Na vinda do Senhor (no Arrebatamento) a mudança de Adão para Cristo estará completa. Então “traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:49) e seremos glorificados fisicamente à semelhança de Cristo (Fp 3:21) e moralmente também (1 Jo 3:2).
Os santos do Antigo Testamento, na posição que ocupavam, não faziam parte desta raça da nova criação, pois não poderia ter existido uma nova raça humana até que Aquele que é a Cabeça dessa nova raça tivesse sido ressuscitado de entre os mortos. Os santos do Antigo Testamento possuíam nova vida e um dia farão parte dessa nova raça no Estado Eterno (apesar de nunca se tornarem parte da noiva de Cristo — Ap 21:2), enquanto os cristãos já fazem parte dessa nova raça agora mesmo como “primícias do Espírito” (2 Co 5:17; Rm 8:23).
Membros do “Um Só Corpo” em Cristo (Rm 12:5; 1 Co 12:12-13). Os cristãos são membros do corpo de Cristo (Ef 5:23-32). Alguns chamam a isto de “união”. Pelo fato de serem habitados pelo Espírito de Deus os cristãos na terra estão unidos a Cristo. As Escrituras dizem: “Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é [o] Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1 Co 12:12-13). Como regra geral, o termo “o Cristo” nas epístolas de Paulo refere-se à união mística dos membros na terra ligados à Cabeça no céu pela habitação do Espírito.

Não poderia ter existido uma união com Cristo até que Ele ressuscitasse de entre os mortos e ocupasse Seu lugar nas alturas como Cabeça do corpo. Os israelitas eram membros da família escolhida de Abraão, e abençoados em conexão com este relacionamento, mas eles não possuíam uma união no corpo de Cristo por terem vivido antes de Sua ressurreição de entre os mortos e antes que o Espírito tivesse sido enviado.



O caráter e glorificação celestiais da Igreja

O caráter e glorificação celestiais da Igreja

Esta companhia de crentes especialmente “chamados para fora” (a Igreja) é uma criação celestial de Deus. Essas pessoas abençoadas são um povo celestial, em contraste com Israel e os gentios redimidos no futuro reino de Cristo, os quais formam o povo terreno com um destino terreno no dia vindouro. As epístolas do Novo Testamento estão repletas de referências que confirmam o caráter e destino celestiais da Igreja. Os cristãos possuem:
  •         “Vocação” ou chamado celestial (Hb 3:1).
  •         “Assento” celestial (Ef 2:6).
  •         “Imagem” celestial (1 Co 15:48-49).
  •         “Bênçãos” celestiais (Ef 1:3).
  •         “Casa” celestial (2 Co 5:1).
  •         “Cidadania” celestial (Fp 3:20).
  •         “Esperança” celestial (Cl 1:5).
  •         “Herança” celestial (1 Pe 1:4).
  •         “Santuário” celestial (Hb 8:1-2; 9:11; 10:19-21).
  •         “Mente” celestial (Cl 3:1-2).
  •         “Cidade” celestial (Hb 11:16; 12:22; 13:14).
  •         “Luta” celestial contra inimigos espirituais (Ef 6:12).

A “esperança” da “vocação” da Igreja (Ef 1:18; Cl 1:23, 27; 3:4) é estar em nossa posição celestial numa condição glorificada, a fim de estarmos capacitados a viver nas alturas dos céus (1 Co 15:48-49; 2 Co 5:1-4; Fp 3:21). As Escrituras mostram o contraste disso, já que a esfera de bênção e herança do Israel redimido são terrenas: “Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão na abundância de paz” (Sl 37:11, 22, etc.). Os israelitas não precisarão estar em corpos glorificados para fazerem parte do reino de Cristo na terra.

Considerando que nossa vocação, porção e destino são celestiais, devemos nos comportar como seres cujos interesses estão nos céus, antes mesmo de termos sido glorificados. Por isso a exortação do apóstolo Paulo aos cristãos é: “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima, e não nas que são da terra” (Cl 3:1-2).



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